FAZER

Hoje, não consegui estudar direito. Não deu, não rolou, sem delongas. O pior é ficar com essa sensação de que eu deveria estar lá, no estudo, de que eu estaria, em suma, perdendo tempo sem estudar agora. Eu estava fazendo algumas questões, lendo um pouco do ECA, mas percebi que minha mente repudiava a atividade, não se ligava a ela. Só me restava uma solução, que era parar de estudar. Ficava a pergunta: o que fazer agora?

Tentei de tudo: celular, rede social (hoje enterrei o Twitter de vez, desativei a conta naquela joça), jogos, livros, mas tudo era repúdio, tudo era intensivamente inadequado. Uma insatisfação tomava conta de mim nas mínimas coisas, eu não me vinculei a absolutamente nada. Surgiu-me a vontade de comer pizza. Não compro, não tenho dinheiro. Droga, sempre me surge a vontade de comer quando minha sensibilidade para a minha própria vida fica aguçada.

Tentei de tudo, mas não consegui justamente algo, que acho que me daria uma satisfação melhor do que a pizza: não fazer. Tudo teria sido um pouco menos intenso, um pouco menos desencaixado, mais suave, mais light. Mas não rolou, estou fazendo até agora. Tô tentando fugir via escrita no blog, mas vi que talvez eu não chegue a nenhuma saída por aqui, já estou, novamente, fazendo.

Senti um pequeno alívio ao escutar Sampa, de Caetano Veloso. Tenho uma história com essa música (é bom falar assim, que temos uma história, isso atesta que vivemos). A história é a seguinte: com 21 anos, estou na universidade e recebo o convite de um professor para um congresso em São Paulo, capital. Ele falava que seria muito bom, que teríamos a chance de encontrar grandes nomes da psicanálise latinoamericana, além de que poderíamos apresentar as nossas pesquisas. Tudo isso parecia muito encantador, mas não me empolguei muito, pois eu necessitaria do auxílio da universidade para ir. Entretanto, sou filho de uma professora do ensino municipal, a minha mãe tem uma renda maior do que os critérios necessários para requisitar assistência à universidade, ainda que ela fosse uma mãe viúva.

Tentei, dei aquela chorada na Pró-reitoria de Assuntos Comunitários, mas nada disso funcionou. Não importava que eu tivesse feito um trabalho, que esse trabalho tivesse sido aprovado pelo congresso (era um congresso grande) e que eu fosse, assim como meus colegas do grupo de pesquisa, espalhar o nome e a pesquisa da universidade. Se eu tivesse de ir, teria de ser com os recursos da minha mãe. Foda, já era... tava preparado pra dar a negativa para o meu professor e ver essa oportunidade voar pelos meus olhos. Até que, não sei por quê, falei para minha mãe desse congresso, desse convite, do trabalho que tinha sido aceito. Ela disse, então, surpreendentemente para mim, já que nunca pensaria que ela aceitasse isso: você vai!

Foi um choque para mim. Minha mãe aceitou que eu fosse para São Paulo, milhares de km de distância da PB. Ela é uma coruja, ela vai deixar eu ir assim mesmo tão longe do ninho? E o dinheiro? Seria complicado, não estávamos em uma fase boa de contas. Mas ela disse: você vai. Chorei.

Há outros pormenores, mas farei o lapso deles para chegar na parte que envolve a música. Chego em São Paulo, fico em um hostel, sozinho, separado de todos meus amigos e do meu professor. Pego metrô só, só sou eu nessa cidade gigante que esmaga pessoas. Vou para a USP. Eu estava num congresso, cheio de lacanianos, uma vertente da psicanálise. Lacanianos tem um idioma próprio: se para nós, meros humanos, o fonema é a base da língua, é nele que nos edificamos, para o lacaniano é o mal-entendido, não ser entendido é a base central de toda estruturação linguística lacaniana.

Brincadeiras à parte, lacanianos são, de fato, seres complicados. Para eles, é como se os conceitos da teoria lacaniana tivessem de ser enfiados em todos os lugares possíveis. Minha pesquisa não trabalhava tanto com Lacan, na verdade estava estudando alguns debates mais contemporâneos em que a psicanálise estava envolvida com as redes sociais. 

O que é fatídico: no primeiro dia de apresentação dos trabalhos no congresso (dois dias antes da minha apresentação), um rapaz, que fazia pesquisas sobre algoritmos, apresentou a pesquisa dele, que era bem consistente. É chegada a hora das perguntas. Uma lacaniana levanta a mão e pede o microfone: "Onde está o Grande Outro aí na sua pesquisa?". O rapaz fica confuso, eu fico confuso, pois eu tinha entendido perfeitamente a proposta da pesquisa dele. Qual era o espaço dessa pergunta, afinal? Não falei com o rapaz, mas certamente ele também se fazia essa pergunta pela face dele. Acontece que a face de todo o restante da platéia estava plácida de interesse pela resposta da pergunta, ela não os consternava. Ele tira uma resposta sem fundamentos da cartola, mas falado em lacanês, idioma secundário dos lacanianos, perdendo apenas para o francês abrasileirado. Como foi falado em lacanês, as feras se deram por satisfeitas.

Vejam minha situação: eu ainda estava no meio do curso, sem tantas leituras em Lacan. O meu nível de lacanês, naquele momento, era o da pessoa que apenas fala em inglês the book is on the table. Então a minha situação era: eu nem poderia fundamentar conceitualmente caso me fizessem uma pergunta dessas, nem poderia fingir um lacanês que nada fala, mas que satisfaz. Me senti completamente vazio, que vontade de chorar. Sou uma farsa, por que eu vim para aqui afinal de contas? E minha família que se esforçou pra isso? O que eu estou fazendo aqui.

São Paulo tem um clima, não só o metereológico, mas o clima da cidade. Sou de cidade de interior, aquela velocidade e indiferença certamente não eram meu lugar. O primeiro papo que tenho em São Paulo é com um Uber que peguei para ir para o Hostel, ele fala dos sonhos caídos, de uma queda financeira do qual ele nunca se recuperou, da falta de perspectiva de vida dele. Puta recepção, meo! 

Aquele clima tomou de conta de mim no instante da pergunta da lacaniana. Meus pulmões foram preenchidos pelo ar de São Paulo, senti o peso neles. Há um verso de Augusto dos Anjos que traduz um pouco do que eu pensei: "O homem, que, nesta terra miserável/Mora, entre feras, sente inevitável/Necessidade de também ser fera". Eu estava entre feras, era evidente. Todos pareciam ser muito bons, todos dispostos a passar por cima uns dos outros sem espaço para perdão ou mínima complascência. Mas eu não era uma fera, eu me sentia um Peba. Peba, aqui na Paraíba, tem duas noções: peba é um adjetivo para uma coisa ruim, morna, desinteressante. Diz-se peba de algo que não provoca o vislumbre de admiração ou graça. Porém, peba também é o nome de uma espécie de tatu, mas é também o genérico popular para qualquer tatu da caatinga.


Eu me sentia um peba. Em ambos os sentidos. Sentia-me um tatu, enrolado covardemente na minha própria pele, sem nada para dar, rolando por aquela cidade que não para de rolar, tentando me proteger contra todas as intempéries. Covardia ou proteção? Meu colega estava com medo de sair da USP sozinho para pegar o ônibus, então saí com ele. Ele foi embora, quem ficou sozinho fui eu. Sozinho, indo a pé para o Hostel, numa cidade que eu não conheço, com altos índices de violência. Eu não pensava em nada disso, não era preciso pensar em nada. Na verdade, o ar de São Paulo já preenchia, na minha cabeça, qualquer lugar que um pensamento poderia ocupar. A lacaniana fez magia.

Então... voltando a pé para o Hostel, paro em um mercadinho para comprar algumas coisas para fazer lá na cozinha. "Vai ser pão com ovo", não tinha orçamento para luxos. Foi o ovo mais caro da minha vida. Não lembro quanto foi, acho que foi um dos mais profundos recalques que tive, mas lembro que era uma cartela com apenas 10 ovos, com o valor do que eu pagaria por 40 aqui na PB. Peguei o ovo, assolado, sem perspectiva, e resignado com o fato de que eu passaria por uma das maiores humilhações de minha vida quando apresentasse meu trabalho.

Até que... vou atrás do pão. A música do mercadinho muda para Sampa. Ah, esse momento. Eu senti a voz de Caetano ser uma só com meus sofrimentos, com as recriminações, admoestações que tinha para mim mesmo. Escuto, indo atrás de um mísero pão:

Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes
E foste um difícil começo
Afasta o que não conheço
E quem vem de outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso

Então, escorro uma lágrima do meu rosto. Não me senti só. Limpei-a rapidamente, não deixaria aquele clima perverso me derrubar. Eu apresentaria sim meu trabalho! Com medo, mas sim, apresentaria. Lembrei de Guimarães Rosa: às vezes pra ter coragem a gente só precisa fazer cara feia. Saudoso Riobaldo! Fiquei determinado, eu poderia estar ali sim, ainda que com medo. Nesse dia, nesse momento, naqueles milhões de pessoas reunidas na cidade de São Paulo, eu era o peba mais confiante da história da metrópole.

Obrigado, São Paulo! Sou grato por isso e por tantas coisas mais. Sinto falta do metrô. Depois desse texto, fiquei com vontade de escrever mais sobre essa viagem. Talvez eu escreva. Finalmente, hoje, fiz algo com que fiquei satisfeito no dia. É raro, mas às vezes a gente só se satisfaz consigo mesmo, nessa coisa de fazer a si.

2 comentários:

  1. Que texto maravilhoso! Você escreve muito bem. Eu fiquei tão preso nesse texto que acabei gastando mais do que devia na padaria...tive que pedir mais um pão de queijo porque só queria sair da mesa após a leitura. Que bom que deu tudo certo em Sampa, as vezes a gente acaba em ambientes estranhos, cercados de feras, mas isso nos prepara para a vida e nos deixa mais fortes. Viva São Paulo e viva Caetano.

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    1. olá, TH!!

      que felicidade ver você aqui no blog!! fico muito feliz que você tenha gostado do post e espero que pelo menos o pão de queijo tenha sido delicioso pra compensar o gasto a mais!

      de fato, essa experiência me fez crescer demais, tanto academicamente quanto pessoalmente, porque foi uma quebra de paradigmas para mim, eu vi que a vida poderia muito bem ser diferente daquela que eu vivia. os desafios sempre estão aí para nós, mas também podemos superá-los!!

      seja sempre bem-vindo por aqui, saiba que um comentário seu me deixa bem feliz. e escreva pra o seu blog, pois seus textos também são muito bons!!

      abraços!!

      adoro usar exclamações

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