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O QUADRADISMO

Com o avanço da internet, eu passei a considerar a estética que este meu blog usa como feia. Feia, sem pestanejar. Sinto que com o passar das plataformas do "momento", do Orkut para o Facebook, para o Instagram, novos modelos estéticos foram introduzidos e o meu senso de beleza digital os acompanhou. Lembro até de que, quando eu era adolescente, eu pensava que toda rede social tinha um tempo limitado, como uma obsolência programada. Ora, eu vi que o Orkut acabou, o Facebook decaiu bastante. Parecia o ritmo óbvio da vida digital que, um dia, o Instagram que chegou após isso iria ser substituído. Aconteceu que não, porque o Instagram segue desde 2016 firme e forte, tendo talvez como o único baque o TikTok, penso eu. Ainda assim, o sistema de reels ajudou-o a manter-se vivo.*

*Notável exceção de tudo que falei para o Twitter, hoje X, que mantém o seu público nichado dos caracteres limitados não tão limitados hoje em razão da opção premium.

De qualquer maneira, o que eu gostaria de falar mesmo é sobre como as interfaces foram ficando cada vez mais fluídas™. Lembro da sensação de clicar nas coisas do Orkut quase como que um arranque de carro velho, travado, a animação um tanto súbita de passar o mouse por cima de um link e ele ficar de outra cor. Não era feio, porque não havia nenhuma outra coisa para comparar, era o que tínhamos. Segue a imagem do saudoso Orkut, com uma resolução nada boa:

Fonte: Purebreak


Fonte: Wikipedia

Não sou formado em design tampouco tenho o mínimo estudo na área. Porém, faço uso de um dos melhores atributos que o blog dá para nossa escrita: o de PITAQUEIRO. O meu pitaco é que a noção de transição foi desempenhando algum tipo de ideal de design das plataformas. Foi preciso, aos poucos, que elas desenvolvessem animações de interação cada vez mais transitórias entre um estado e outro, entre não selecionado-selecionado, na rodinha que fica girando enquanto atualizamos a página (lembra de quando a atualização só era seguido por uma mudança do mouse para uma ampulheta estática?).

Os quadrados bem delimitados dos designs de interface vão dando lugar para essas animações fluídas. Lembro que o Facebook tinha uma maior fluidez nas coisas: quando o mouse estava por cima de um determinado elemento da página, ele ficava progressivamente mais envolto por um azul clarinho, ou, no chat, a área ao redor do nome do amigo ficava mais cinza, quando queríamos abrir um pop-up de bate-papo.




Já o Instagram não surgiu como website, ele apareceu como aplicativo de celular. Antes, quando o ícone era a camerazinha cinza, apesar de que procurei rapidamente aqui na internet e vi que ele já teve outro ícone mais antigo que esse, lembro que o Instagram (ao menos quando comecei a acessá-lo, em 2014, no meu Galaxy Pocket) também era travado. Ele também tinha contornos muito bem delimitados, a interface branca, a barra em cima e embaixo com a casinha, a lupa, o coração e algo mais que não me lembro.

Parando para pensar agora, talvez eu considere que essa estética inicial do app guarda um tipo de mistura entre aquilo que tinha no Orkut e aquilo que tinha no Facebook. Esses modelos mais rigidos, a seleção altamente evidente, longe do minimalismo atual, com uma caixa da guia que fica inteiramente mais nítida quando selecionada, distinta do atual preenchimento apenas da casinha, do ícone, não da caixa inteira. Tudo isso guarda certas semelhanças com Orkut. Porém a suavidade do design dos elementos já é mais distinta daquela brutalidade orkutiana e mais próxima do design que o Facebook abriu como paradigma.

Acontece que penso que o Instagram merece seu lugar inaugural por perceber que um elemento deveria ser integrado no design: a interação touch-screen. E é aqui que, talvez, o conceito de transição e fluidez tenham atingido seu ápice, porque o ideal é de que a fluidez da plataforma acompanhe a fluidez dos movimentos do usuário. Passar a tela para o lado direito para abrir as conversas, para o lado esquerdo para abrir a câmera, tocar duas vezes para curtir... como não se tornar Um com o celular quando a arquitetura dos seus softwares são tão adaptáveis à >nossa< arquitetura de movimentos? 

A touch screen é o portal para o tempo imparável, para a criação de um espaço ampliado do nosso corpo, dos nossos próprios movimentos. Ela busca simular a suavidade dos movimentos corporais não só na velocidade de resposta a eles, como também nas animações que nos mostram essas respostas. Platão dizia que, antes da humanidade ser humanidade, ela era andrógina: havia homem-homem, homem-mulher, mulher-mulher, seres unidos em um só corpo. Com raiva dessa completude, Zeus cortou os andróginos no meio, sobraram os humanos incompletos. O novo capítulo, de que Platão ainda não tinha noção, é que a humanidade por nostalgia fez acidentalmente uma criatura que o completa, o smartphone.

Eu poderia falar do TikTok, mas estou com preguiça. Apenas penso que o TikTok eleva essa integração do touch screen no design à enésima potência, mas, paradoxalmente, com o predomínio de dois movimentos: o de subir e descer. O que eu gostaria de falar mesmo é sobre a minha paixão retroativA por aquilo que dá título a esse post: O QUADRADISMO.

Acho que venho tendo a ideia disso desde que, em busca de imagens retros para o blog, vi essa imagem que achei interessante: um Instagram no modelo Windows XP?! Como seria o mundo assim? Que perspectiva diferente que o aplicativo teria! Será que os usuários seriam mais calmos. Acho que não, acho que isso é grito nostalgico mesmo. Hoje é a própria lógica das plataformas (claro que seu design é um elemento integrante) que propicia um irracionalismo (seria melhor falar REAÇionalismo?) como forma de interação social. De qualquer forma, eu gostei da ideia, então pensei: nossa velho, eu queria um ambiente digital que fosse um pouco assim, não necessariamente Windows XP, mas um pouco mais quadrado e não fluído.

Assim, nasceu o projeto estético do blog. Era isso que eu queria no design desse espacinho meu na internet, esse meu site, que continua sendo propriedade da Google e.e masssss era isso que esse texto queria dizer. E não, esse texto não serve, de maneira alguma, em nenhuma hipótese, com certeza não, para encobrir a minha incapacidade de construir o design de um blog (ainda que se eu a tivesse tentaria deixá-lo um pouco mais quadrado em razão dos motivos elencados acima).

Este site poderia sim ser menos quadrado! Mas que não deixe de sê-lo.


ESTUDAR LEIS: É PRECISO UM PAPEL

Hoje decidi falar sobre uma das coisas mais chatas no estudo de concursos públicos: estudar leis. Inicialmente, considerava que seria impossível para mim aprender o que uma lei diz, com aquele tanto de informações compiladas umas sobre as outras. É bem diferente de estudar teorias psicológicas ou temáticas psicológicas, pois estas tendem a construir uma correlação, um conceito ou elemento interage com outro, de modo que a qualquer instante todo conceito está sendo recuperado. Entretanto, as leis não são assim, porque a dimensão "decoreba" acaba sendo a mais presente de todas. Apesar disso, descobri um aliado inesperado: o papel... ah, o papel!

O papel me ajuda bastante, porque posso ver toda a disposição do texto na minha frente: não há zoom para ampliar ou afastar, pois simplesmente o texto está oferecido em uma ordem definida para os meus olhos. Posso, por outro lado, rabiscar, circular, ligar, escrever e dar outras tonalidades para essa ordem que me foi oferecida, e é exatamente isso o que faço. A minha letra, horrenda e troncha, inlinear, decaindo como uma cascata nas folhas sem linhas: eu a amo, eu posso ter dela uma noção de criação. E isso me faz ficar apaixonado pelo papel da lei... vou achando como que um fruir estético de estar nele, construindo nele?!

É bem diferente, por exemplo, desta escrita dos blogs, com o uso de caracteres que são uniformes, digitados. Certa vez, vi um neuropsicólogo afirmar que o feedback dado por teclar uma tecla e escrever uma letra é bem diferente, e isso é verdade: aos poucos, teclar vai se tornando uma ação indiferenciada, como se um só ato pudesse produzir uma infinidade de letras e palavras. Escrever, por outro lado, necessita de movimentos precisos para se realizar: vá lá que a escrita de um "l" minúsculo é bem parecida com a de um "e" minúsculo, mas não se escreve a palavra "lerdo" com o mesmo ato indefinido entre o "l" e o "e": é preciso organizar, ainda que façamos isso automaticamente (e é tão belo que o façamos), mas tudo isso é advindo de tantas minúncias que esquecemos os anos de formação aos quais tivemos de nos dedicar quando crianças, com muito esforço, para aprender a desenhar uma letra, para associá-la a um som, para associá-la às outras letras, para formar um mundo com a linguagem.

Com isso, não quero causar demérito nenhum aos computadores, às telas, aos fãs dos arquivos digitais. Até porque sou um desses fãs, já que quem não ama usar a ferramenta de lupinha de seu leitor de pdf para encontrar rapidamente aquilo que demoraríamos horas de rastreamento entre sumário e páginas para achar? Num instante, achamos. Contudo, só desejo salientar algo que o próprio Freud um dia falara no "Mal-estar na cultura": as nossas inovações tecnológicas tem a tendência de serem cobertores curtos: para quê aumentar a longevidade da vida se cada vez mais as pessoas tem vivido vidas mais miseráveis? o carro que me faz aniquilar a distância entre eu e meu amigo que sinto saudades é o mesmo que o levará novamente para longe de mim. De maneira semelhante, a mesma lupinha que nos faz encontrar de imediato uma informação é aquela que nos tira a possibilidade de encontrar fortuitamente algo que em um primeiro momento não era nosso interesse principal, mas que de súbito nos faz deparar com um interesse inesperado.

Enfim, isso é mais uma reunião de pensamentos que tenho sobre o papel. E, ah! sobre as leis... eu penso que é muito importante, pelo menos para mim, o estudo delas no papel, fixo, sem rolagem de tela. Quando faço questões, sinto que a primeira coisa que me vem à memória é onde o artigo que está sendo cobrado está na página do papel: em cima, embaixo, no meio... logo isso me vem rapidamente à cabeça, e as associações passam a ser feitas com mais facilidade.

Acredito que isso tenha motivos psicopedagógicos relacionados com a orientação, pois essa função psíquica tem uma ordem hierárquica: primeiro temos a orientação de nós mesmos, ela é a mais básica; depois, a orientação espacial, que permite com que localizemos onde estamos e onde estão as coisas no mundo; por fim, a orientação temporal, que encadeia os fatos, liga-os por uma ordem causal, além de nos dar a noção "cronológica" de tempo. O fato de haver um espaço no papel, onde podemos localizar as coisas, tem caráter auxiliar para nossa capacidade de entender de maneira causal essas mesmas coisas, pondo-as em ordem. A fixidez no papel talvez nos ajude nessa dimensão organizativa.

Mas... sigo estudando! Essa é só uma dica que construí para mim, talvez para outra pessoa funcione de outras formas. Há muitas leis bem importantes para estudar: o ECA, a Maria da Penha, o Estatuto da Pessoa Idosa, a lei Henry Borel, o sistema de garantias de direito da criança e do adolescente... tantas e tantas coisas, que aos poucos sinto serem mais tangíveis para mim. Seguimos!

Aliás, uma sugestão de vídeo, que até encaminhei para minha namorada. É uma reportagem da DW sobre a perda da capacidade de escrita e as implicações históricas disso. Não é só a perda de uma habilidade individual, mas uma perda cultural em grande escala. Enfim, segue o vídeo para os interessados ^_^






Sobre ler Nietzsche: um ar.

Ler Nietzsche... Para mim, sempre foi uma experiência em tanto. Cheguei ao bigodudo por recomendação de um grande amigo, Paulo, saudoso Paul...