FAZER

Hoje, não consegui estudar direito. Não deu, não rolou, sem delongas. O pior é ficar com essa sensação de que eu deveria estar lá, no estudo, de que eu estaria, em suma, perdendo tempo sem estudar agora. Eu estava fazendo algumas questões, lendo um pouco do ECA, mas percebi que minha mente repudiava a atividade, não se ligava a ela. Só me restava uma solução, que era parar de estudar. Ficava a pergunta: o que fazer agora?

Tentei de tudo: celular, rede social (hoje enterrei o Twitter de vez, desativei a conta naquela joça), jogos, livros, mas tudo era repúdio, tudo era intensivamente inadequado. Uma insatisfação tomava conta de mim nas mínimas coisas, eu não me vinculei a absolutamente nada. Surgiu-me a vontade de comer pizza. Não compro, não tenho dinheiro. Droga, sempre me surge a vontade de comer quando minha sensibilidade para a minha própria vida fica aguçada.

Tentei de tudo, mas não consegui justamente algo, que acho que me daria uma satisfação melhor do que a pizza: não fazer. Tudo teria sido um pouco menos intenso, um pouco menos desencaixado, mais suave, mais light. Mas não rolou, estou fazendo até agora. Tô tentando fugir via escrita no blog, mas vi que talvez eu não chegue a nenhuma saída por aqui, já estou, novamente, fazendo.

Senti um pequeno alívio ao escutar Sampa, de Caetano Veloso. Tenho uma história com essa música (é bom falar assim, que temos uma história, isso atesta que vivemos). A história é a seguinte: com 21 anos, estou na universidade e recebo o convite de um professor para um congresso em São Paulo, capital. Ele falava que seria muito bom, que teríamos a chance de encontrar grandes nomes da psicanálise latinoamericana, além de que poderíamos apresentar as nossas pesquisas. Tudo isso parecia muito encantador, mas não me empolguei muito, pois eu necessitaria do auxílio da universidade para ir. Entretanto, sou filho de uma professora do ensino municipal, a minha mãe tem uma renda maior do que os critérios necessários para requisitar assistência à universidade, ainda que ela fosse uma mãe viúva.

Tentei, dei aquela chorada na Pró-reitoria de Assuntos Comunitários, mas nada disso funcionou. Não importava que eu tivesse feito um trabalho, que esse trabalho tivesse sido aprovado pelo congresso (era um congresso grande) e que eu fosse, assim como meus colegas do grupo de pesquisa, espalhar o nome e a pesquisa da universidade. Se eu tivesse de ir, teria de ser com os recursos da minha mãe. Foda, já era... tava preparado pra dar a negativa para o meu professor e ver essa oportunidade voar pelos meus olhos. Até que, não sei por quê, falei para minha mãe desse congresso, desse convite, do trabalho que tinha sido aceito. Ela disse, então, surpreendentemente para mim, já que nunca pensaria que ela aceitasse isso: você vai!

Foi um choque para mim. Minha mãe aceitou que eu fosse para São Paulo, milhares de km de distância da PB. Ela é uma coruja, ela vai deixar eu ir assim mesmo tão longe do ninho? E o dinheiro? Seria complicado, não estávamos em uma fase boa de contas. Mas ela disse: você vai. Chorei.

Há outros pormenores, mas farei o lapso deles para chegar na parte que envolve a música. Chego em São Paulo, fico em um hostel, sozinho, separado de todos meus amigos e do meu professor. Pego metrô só, só sou eu nessa cidade gigante que esmaga pessoas. Vou para a USP. Eu estava num congresso, cheio de lacanianos, uma vertente da psicanálise. Lacanianos tem um idioma próprio: se para nós, meros humanos, o fonema é a base da língua, é nele que nos edificamos, para o lacaniano é o mal-entendido, não ser entendido é a base central de toda estruturação linguística lacaniana.

Brincadeiras à parte, lacanianos são, de fato, seres complicados. Para eles, é como se os conceitos da teoria lacaniana tivessem de ser enfiados em todos os lugares possíveis. Minha pesquisa não trabalhava tanto com Lacan, na verdade estava estudando alguns debates mais contemporâneos em que a psicanálise estava envolvida com as redes sociais. 

O que é fatídico: no primeiro dia de apresentação dos trabalhos no congresso (dois dias antes da minha apresentação), um rapaz, que fazia pesquisas sobre algoritmos, apresentou a pesquisa dele, que era bem consistente. É chegada a hora das perguntas. Uma lacaniana levanta a mão e pede o microfone: "Onde está o Grande Outro aí na sua pesquisa?". O rapaz fica confuso, eu fico confuso, pois eu tinha entendido perfeitamente a proposta da pesquisa dele. Qual era o espaço dessa pergunta, afinal? Não falei com o rapaz, mas certamente ele também se fazia essa pergunta pela face dele. Acontece que a face de todo o restante da platéia estava plácida de interesse pela resposta da pergunta, ela não os consternava. Ele tira uma resposta sem fundamentos da cartola, mas falado em lacanês, idioma secundário dos lacanianos, perdendo apenas para o francês abrasileirado. Como foi falado em lacanês, as feras se deram por satisfeitas.

Vejam minha situação: eu ainda estava no meio do curso, sem tantas leituras em Lacan. O meu nível de lacanês, naquele momento, era o da pessoa que apenas fala em inglês the book is on the table. Então a minha situação era: eu nem poderia fundamentar conceitualmente caso me fizessem uma pergunta dessas, nem poderia fingir um lacanês que nada fala, mas que satisfaz. Me senti completamente vazio, que vontade de chorar. Sou uma farsa, por que eu vim para aqui afinal de contas? E minha família que se esforçou pra isso? O que eu estou fazendo aqui.

São Paulo tem um clima, não só o metereológico, mas o clima da cidade. Sou de cidade de interior, aquela velocidade e indiferença certamente não eram meu lugar. O primeiro papo que tenho em São Paulo é com um Uber que peguei para ir para o Hostel, ele fala dos sonhos caídos, de uma queda financeira do qual ele nunca se recuperou, da falta de perspectiva de vida dele. Puta recepção, meo! 

Aquele clima tomou de conta de mim no instante da pergunta da lacaniana. Meus pulmões foram preenchidos pelo ar de São Paulo, senti o peso neles. Há um verso de Augusto dos Anjos que traduz um pouco do que eu pensei: "O homem, que, nesta terra miserável/Mora, entre feras, sente inevitável/Necessidade de também ser fera". Eu estava entre feras, era evidente. Todos pareciam ser muito bons, todos dispostos a passar por cima uns dos outros sem espaço para perdão ou mínima complascência. Mas eu não era uma fera, eu me sentia um Peba. Peba, aqui na Paraíba, tem duas noções: peba é um adjetivo para uma coisa ruim, morna, desinteressante. Diz-se peba de algo que não provoca o vislumbre de admiração ou graça. Porém, peba também é o nome de uma espécie de tatu, mas é também o genérico popular para qualquer tatu da caatinga.


Eu me sentia um peba. Em ambos os sentidos. Sentia-me um tatu, enrolado covardemente na minha própria pele, sem nada para dar, rolando por aquela cidade que não para de rolar, tentando me proteger contra todas as intempéries. Covardia ou proteção? Meu colega estava com medo de sair da USP sozinho para pegar o ônibus, então saí com ele. Ele foi embora, quem ficou sozinho fui eu. Sozinho, indo a pé para o Hostel, numa cidade que eu não conheço, com altos índices de violência. Eu não pensava em nada disso, não era preciso pensar em nada. Na verdade, o ar de São Paulo já preenchia, na minha cabeça, qualquer lugar que um pensamento poderia ocupar. A lacaniana fez magia.

Então... voltando a pé para o Hostel, paro em um mercadinho para comprar algumas coisas para fazer lá na cozinha. "Vai ser pão com ovo", não tinha orçamento para luxos. Foi o ovo mais caro da minha vida. Não lembro quanto foi, acho que foi um dos mais profundos recalques que tive, mas lembro que era uma cartela com apenas 10 ovos, com o valor do que eu pagaria por 40 aqui na PB. Peguei o ovo, assolado, sem perspectiva, e resignado com o fato de que eu passaria por uma das maiores humilhações de minha vida quando apresentasse meu trabalho.

Até que... vou atrás do pão. A música do mercadinho muda para Sampa. Ah, esse momento. Eu senti a voz de Caetano ser uma só com meus sofrimentos, com as recriminações, admoestações que tinha para mim mesmo. Escuto, indo atrás de um mísero pão:

Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes
E foste um difícil começo
Afasta o que não conheço
E quem vem de outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso

Então, escorro uma lágrima do meu rosto. Não me senti só. Limpei-a rapidamente, não deixaria aquele clima perverso me derrubar. Eu apresentaria sim meu trabalho! Com medo, mas sim, apresentaria. Lembrei de Guimarães Rosa: às vezes pra ter coragem a gente só precisa fazer cara feia. Saudoso Riobaldo! Fiquei determinado, eu poderia estar ali sim, ainda que com medo. Nesse dia, nesse momento, naqueles milhões de pessoas reunidas na cidade de São Paulo, eu era o peba mais confiante da história da metrópole.

Obrigado, São Paulo! Sou grato por isso e por tantas coisas mais. Sinto falta do metrô. Depois desse texto, fiquei com vontade de escrever mais sobre essa viagem. Talvez eu escreva. Finalmente, hoje, fiz algo com que fiquei satisfeito no dia. É raro, mas às vezes a gente só se satisfaz consigo mesmo, nessa coisa de fazer a si.

O QUADRADISMO

Com o avanço da internet, eu passei a considerar a estética que este meu blog usa como feia. Feia, sem pestanejar. Sinto que com o passar das plataformas do "momento", do Orkut para o Facebook, para o Instagram, novos modelos estéticos foram introduzidos e o meu senso de beleza digital os acompanhou. Lembro até de que, quando eu era adolescente, eu pensava que toda rede social tinha um tempo limitado, como uma obsolência programada. Ora, eu vi que o Orkut acabou, o Facebook decaiu bastante. Parecia o ritmo óbvio da vida digital que, um dia, o Instagram que chegou após isso iria ser substituído. Aconteceu que não, porque o Instagram segue desde 2016 firme e forte, tendo talvez como o único baque o TikTok, penso eu. Ainda assim, o sistema de reels ajudou-o a manter-se vivo.*

*Notável exceção de tudo que falei para o Twitter, hoje X, que mantém o seu público nichado dos caracteres limitados não tão limitados hoje em razão da opção premium.

De qualquer maneira, o que eu gostaria de falar mesmo é sobre como as interfaces foram ficando cada vez mais fluídas™. Lembro da sensação de clicar nas coisas do Orkut quase como que um arranque de carro velho, travado, a animação um tanto súbita de passar o mouse por cima de um link e ele ficar de outra cor. Não era feio, porque não havia nenhuma outra coisa para comparar, era o que tínhamos. Segue a imagem do saudoso Orkut, com uma resolução nada boa:

Fonte: Purebreak


Fonte: Wikipedia

Não sou formado em design tampouco tenho o mínimo estudo na área. Porém, faço uso de um dos melhores atributos que o blog dá para nossa escrita: o de PITAQUEIRO. O meu pitaco é que a noção de transição foi desempenhando algum tipo de ideal de design das plataformas. Foi preciso, aos poucos, que elas desenvolvessem animações de interação cada vez mais transitórias entre um estado e outro, entre não selecionado-selecionado, na rodinha que fica girando enquanto atualizamos a página (lembra de quando a atualização só era seguido por uma mudança do mouse para uma ampulheta estática?).

Os quadrados bem delimitados dos designs de interface vão dando lugar para essas animações fluídas. Lembro que o Facebook tinha uma maior fluidez nas coisas: quando o mouse estava por cima de um determinado elemento da página, ele ficava progressivamente mais envolto por um azul clarinho, ou, no chat, a área ao redor do nome do amigo ficava mais cinza, quando queríamos abrir um pop-up de bate-papo.




Já o Instagram não surgiu como website, ele apareceu como aplicativo de celular. Antes, quando o ícone era a camerazinha cinza, apesar de que procurei rapidamente aqui na internet e vi que ele já teve outro ícone mais antigo que esse, lembro que o Instagram (ao menos quando comecei a acessá-lo, em 2014, no meu Galaxy Pocket) também era travado. Ele também tinha contornos muito bem delimitados, a interface branca, a barra em cima e embaixo com a casinha, a lupa, o coração e algo mais que não me lembro.

Parando para pensar agora, talvez eu considere que essa estética inicial do app guarda um tipo de mistura entre aquilo que tinha no Orkut e aquilo que tinha no Facebook. Esses modelos mais rigidos, a seleção altamente evidente, longe do minimalismo atual, com uma caixa da guia que fica inteiramente mais nítida quando selecionada, distinta do atual preenchimento apenas da casinha, do ícone, não da caixa inteira. Tudo isso guarda certas semelhanças com Orkut. Porém a suavidade do design dos elementos já é mais distinta daquela brutalidade orkutiana e mais próxima do design que o Facebook abriu como paradigma.

Acontece que penso que o Instagram merece seu lugar inaugural por perceber que um elemento deveria ser integrado no design: a interação touch-screen. E é aqui que, talvez, o conceito de transição e fluidez tenham atingido seu ápice, porque o ideal é de que a fluidez da plataforma acompanhe a fluidez dos movimentos do usuário. Passar a tela para o lado direito para abrir as conversas, para o lado esquerdo para abrir a câmera, tocar duas vezes para curtir... como não se tornar Um com o celular quando a arquitetura dos seus softwares são tão adaptáveis à >nossa< arquitetura de movimentos? 

A touch screen é o portal para o tempo imparável, para a criação de um espaço ampliado do nosso corpo, dos nossos próprios movimentos. Ela busca simular a suavidade dos movimentos corporais não só na velocidade de resposta a eles, como também nas animações que nos mostram essas respostas. Platão dizia que, antes da humanidade ser humanidade, ela era andrógina: havia homem-homem, homem-mulher, mulher-mulher, seres unidos em um só corpo. Com raiva dessa completude, Zeus cortou os andróginos no meio, sobraram os humanos incompletos. O novo capítulo, de que Platão ainda não tinha noção, é que a humanidade por nostalgia fez acidentalmente uma criatura que o completa, o smartphone.

Eu poderia falar do TikTok, mas estou com preguiça. Apenas penso que o TikTok eleva essa integração do touch screen no design à enésima potência, mas, paradoxalmente, com o predomínio de dois movimentos: o de subir e descer. O que eu gostaria de falar mesmo é sobre a minha paixão retroativA por aquilo que dá título a esse post: O QUADRADISMO.

Acho que venho tendo a ideia disso desde que, em busca de imagens retros para o blog, vi essa imagem que achei interessante: um Instagram no modelo Windows XP?! Como seria o mundo assim? Que perspectiva diferente que o aplicativo teria! Será que os usuários seriam mais calmos. Acho que não, acho que isso é grito nostalgico mesmo. Hoje é a própria lógica das plataformas (claro que seu design é um elemento integrante) que propicia um irracionalismo (seria melhor falar REAÇionalismo?) como forma de interação social. De qualquer forma, eu gostei da ideia, então pensei: nossa velho, eu queria um ambiente digital que fosse um pouco assim, não necessariamente Windows XP, mas um pouco mais quadrado e não fluído.

Assim, nasceu o projeto estético do blog. Era isso que eu queria no design desse espacinho meu na internet, esse meu site, que continua sendo propriedade da Google e.e masssss era isso que esse texto queria dizer. E não, esse texto não serve, de maneira alguma, em nenhuma hipótese, com certeza não, para encobrir a minha incapacidade de construir o design de um blog (ainda que se eu a tivesse tentaria deixá-lo um pouco mais quadrado em razão dos motivos elencados acima).

Este site poderia sim ser menos quadrado! Mas que não deixe de sê-lo.


Há tantas tarefas e eu quero uma só

Uma das coisas mais legais de viver é observar nossas incoerências, porque, pelo menos nas minhas, é onde posso ver saídas para os meus próprios conflitos e limites. Já fui de pensar que era por um tipo de polimento de mim mesmo que eu me tornaria melhor, mais comprometido com aquilo que eu quero. Hoje penso diferente, acredito que só posso querer enquanto não estiver polido, que os pontos finais não são tão verdadeiros, que a vida, em si, só aceita como bastante o ponto da morte.

Por isso, ponto e vírgula! Algumas pausas um pouco maiores têm me auxiliado a ver o mundo com um espaço e um tempo distinto: ligo a tv, espero a jornalista apresentar as noticias para mim, devo esperar a notícia que não ligo tanto acabar para ver outra e por aí vai...; escrevo o blog, e me satisfaço de rolá-lo até um fim que chega. Graças a Deus, o mundo tem fim.

Nessas e outras, sobra sempre um momentinho aqui e acolá quando as tarefas não se sobrepõe num ritmo imparável umas às outras. E, talvez, foi essa epifania que eu tive e que me revelou uma grande dificuldade minha: santo Deus, as tarefas se sobrepõe num ritmo imparável umas às outras!

Percebi o quanto isso me exaure enquanto estudo. Na verdade, em outro momento, até falei sobre isso quanto às demandas da universidade. Entretanto, essas eram tarefas grandes, mas as pequenas também vão fazendo boa parte de desgaste psíquico na minha vida. Domingo é o dia em que faço o almoço da semana, e é sempre tirar o dia para isso: a saga começa no dia anterior, com o remolho do feijão. De manhãzinha, tirar o frango para descongelar; cortar os legumes; cortar a calabresa do feijão; cozinhar o feijão; guardar nas marmitinhas; limpar a panela de pressão (que saco!) pra fazer o frango... estou me cansando até de empilhar tudo que é preciso fazer.

Hoje, segunda-feira, por mais que eu tenha lavado louças e louças (curiosamente, minha mãe chama a louça que está na pia de troço, e gosto do vocábulo "troço" porque dá uma conotação de raiva que temos da louça para lavar). Corrigindo-me, por mais que eu tenha lavado os troços* ainda sobraram troços para lavar hoje. Deixei-os na pia, eis o começo de minha saga.

A cozinha se tornou o elefante da casa. Depois de uma noite mal dormida em razão de gritos dos vizinhos (poxa, no domingo é sacanagem pessoal, segunda é dia de voltar ao tranco), fui fazer o café da manhã, olhei para aquelas panelas, talheres, pratos, tábuas... "vixe, vou só lavar a frigideira e fazer meu ovo". Mais um para a pilha. Saio, vou para a universidade. Volto (a cozinha fica próxima à porta de entrada), e o elefante olha para mim. Ignoro-o. Preciso estudar para o concurso. Começo a correr os olhos pelo manual de psicopatologia, sensopercepção, interessantíssimo, existem fenômenos registrados de pessoas que conseguem ver os objetos, mas não os percebem: como é incrível e inacreditável o tanto de coisas que existem! E... a louça na cozinha, que também existe.

Aquela louça se tornou minha inimiga número um, porque tudo que eu queria fazer era invadido por ela. Passei a tarde inteira nisso. Ah,  meu Deus! de manhã eu tinha colocado uma máquina de roupas para lavar: tenho que estendê-las, mas quando... quanta roupa... e ainda tenho que tirar as que eu já tinha estendido no varal. Tudo vindo atrás do outro, um trem, com vagões infinitos, se passava nos trilhos de minha mente. Uma das formas de me expressar é uma carta — uma das minhas favoritas, inclusive ! — de Yu-Gi-Oh!: a polimerização, carta usada para fazer a fusão de monstros e torná-los mais fortes e com novos efeitos. 

Mas todo trem tem um maquinista. E quisesse eu ou não, sofresse eu ou não, o maquinista era eu: e já estava vendo os vagões descarrilharem. Vagões que eu coloquei na minha própria vida e que não posso pedir resgate sem responder, ao questionarem como isso aconteceu, que fui eu quem fiz esse caos. Percebo que muitas dimensões da vida não dependem de mim, mas muitas também dependem, e talvez sejam elas as mais importantes que eu tenho para lidar.

Acredito que seja isso que eu queria dizer. Hoje ainda pretendo estudar informática, sobre as noções de hardware. E descubro que, como no Yu-Gi-Oh, é sempre importante deixar uma carta virada para baixo, porque ela pode te ajudar.






ESTUDAR LEIS: É PRECISO UM PAPEL

Hoje decidi falar sobre uma das coisas mais chatas no estudo de concursos públicos: estudar leis. Inicialmente, considerava que seria impossível para mim aprender o que uma lei diz, com aquele tanto de informações compiladas umas sobre as outras. É bem diferente de estudar teorias psicológicas ou temáticas psicológicas, pois estas tendem a construir uma correlação, um conceito ou elemento interage com outro, de modo que a qualquer instante todo conceito está sendo recuperado. Entretanto, as leis não são assim, porque a dimensão "decoreba" acaba sendo a mais presente de todas. Apesar disso, descobri um aliado inesperado: o papel... ah, o papel!

O papel me ajuda bastante, porque posso ver toda a disposição do texto na minha frente: não há zoom para ampliar ou afastar, pois simplesmente o texto está oferecido em uma ordem definida para os meus olhos. Posso, por outro lado, rabiscar, circular, ligar, escrever e dar outras tonalidades para essa ordem que me foi oferecida, e é exatamente isso o que faço. A minha letra, horrenda e troncha, inlinear, decaindo como uma cascata nas folhas sem linhas: eu a amo, eu posso ter dela uma noção de criação. E isso me faz ficar apaixonado pelo papel da lei... vou achando como que um fruir estético de estar nele, construindo nele?!

É bem diferente, por exemplo, desta escrita dos blogs, com o uso de caracteres que são uniformes, digitados. Certa vez, vi um neuropsicólogo afirmar que o feedback dado por teclar uma tecla e escrever uma letra é bem diferente, e isso é verdade: aos poucos, teclar vai se tornando uma ação indiferenciada, como se um só ato pudesse produzir uma infinidade de letras e palavras. Escrever, por outro lado, necessita de movimentos precisos para se realizar: vá lá que a escrita de um "l" minúsculo é bem parecida com a de um "e" minúsculo, mas não se escreve a palavra "lerdo" com o mesmo ato indefinido entre o "l" e o "e": é preciso organizar, ainda que façamos isso automaticamente (e é tão belo que o façamos), mas tudo isso é advindo de tantas minúncias que esquecemos os anos de formação aos quais tivemos de nos dedicar quando crianças, com muito esforço, para aprender a desenhar uma letra, para associá-la a um som, para associá-la às outras letras, para formar um mundo com a linguagem.

Com isso, não quero causar demérito nenhum aos computadores, às telas, aos fãs dos arquivos digitais. Até porque sou um desses fãs, já que quem não ama usar a ferramenta de lupinha de seu leitor de pdf para encontrar rapidamente aquilo que demoraríamos horas de rastreamento entre sumário e páginas para achar? Num instante, achamos. Contudo, só desejo salientar algo que o próprio Freud um dia falara no "Mal-estar na cultura": as nossas inovações tecnológicas tem a tendência de serem cobertores curtos: para quê aumentar a longevidade da vida se cada vez mais as pessoas tem vivido vidas mais miseráveis? o carro que me faz aniquilar a distância entre eu e meu amigo que sinto saudades é o mesmo que o levará novamente para longe de mim. De maneira semelhante, a mesma lupinha que nos faz encontrar de imediato uma informação é aquela que nos tira a possibilidade de encontrar fortuitamente algo que em um primeiro momento não era nosso interesse principal, mas que de súbito nos faz deparar com um interesse inesperado.

Enfim, isso é mais uma reunião de pensamentos que tenho sobre o papel. E, ah! sobre as leis... eu penso que é muito importante, pelo menos para mim, o estudo delas no papel, fixo, sem rolagem de tela. Quando faço questões, sinto que a primeira coisa que me vem à memória é onde o artigo que está sendo cobrado está na página do papel: em cima, embaixo, no meio... logo isso me vem rapidamente à cabeça, e as associações passam a ser feitas com mais facilidade.

Acredito que isso tenha motivos psicopedagógicos relacionados com a orientação, pois essa função psíquica tem uma ordem hierárquica: primeiro temos a orientação de nós mesmos, ela é a mais básica; depois, a orientação espacial, que permite com que localizemos onde estamos e onde estão as coisas no mundo; por fim, a orientação temporal, que encadeia os fatos, liga-os por uma ordem causal, além de nos dar a noção "cronológica" de tempo. O fato de haver um espaço no papel, onde podemos localizar as coisas, tem caráter auxiliar para nossa capacidade de entender de maneira causal essas mesmas coisas, pondo-as em ordem. A fixidez no papel talvez nos ajude nessa dimensão organizativa.

Mas... sigo estudando! Essa é só uma dica que construí para mim, talvez para outra pessoa funcione de outras formas. Há muitas leis bem importantes para estudar: o ECA, a Maria da Penha, o Estatuto da Pessoa Idosa, a lei Henry Borel, o sistema de garantias de direito da criança e do adolescente... tantas e tantas coisas, que aos poucos sinto serem mais tangíveis para mim. Seguimos!

Aliás, uma sugestão de vídeo, que até encaminhei para minha namorada. É uma reportagem da DW sobre a perda da capacidade de escrita e as implicações históricas disso. Não é só a perda de uma habilidade individual, mas uma perda cultural em grande escala. Enfim, segue o vídeo para os interessados ^_^






Outras considerações entre o mundo demandante e as demandas que ponho a mim

Fonte: https://pt.picmix.com/pic/2000s-Internet-Cybercore-Dog-12005514

Ainda estou na empolgação de ter criado o blog e, por isso, sinto vontade de escrever no momento. Na verdade, só sinto essa vontade muito separada, sem necessariamente se articular com aquilo que eu desejo escrever. Efetivamente, o que eu gostaria de estar fazendo é estudar, mas me sinto assolado por todas as demandas fora do compromisso de estudo dos concursos que quero construir.

A primeira delas é a universidade: devo acabar meu TCC, finalizar o relatório de pesquisa e fazer um bom trabalho no estágio, pois os meus pacientes não podem ser lesados por qualquer descompromisso meu. Entretanto, tudo isso aparece parar mim como atividades altamente extenuantes, sem ordem e nexo. Posso assegurar que tudo isso não se assemelha a um conjunto articulado de atividades, mas parecem mais um bombardeio, uma pressão geral, como coisas que espinham o corpo, que na verdade quebram a ordem que eu gostaria de construir.

Então, a universidade, esse grande conjunto, tem agido também como um grande obstáculo para o meu objetivo de estudar para o concurso. Acontece que penso que os problemas que a própria instituição não difere em qualidade daqueles que vejo na internet. Se, nesta última, vejo o problema da criação de um convite incessante e quase que irrecusável de acesso e conexão; naquela vejo a sobreposição de demandas que não param de se empilhar e que não conversam necessariamente entre si, num intervalo temporal ainda mais reduzido.

Afirmo que há a diminuição de intervalo temporal porque, devido à pandemia, a minha universidade desrregulou o calendário acadêmico, necessitando cumprir os períodos em tempos mais curtos para que acompanhe o calendário gregoriano que nos rege. Logo, o que deveria ser feito em 6 meses está sendo feito em 3. A celeridade de tudo que está sendo imposta ao ritmo acadêmico não é tão distante daquela que a internet nos convida sem parar para participarmos.

Tenho também a minha própria "culpa no cartório", pois tenho feito as coisas serem grandiosas demais, querido que elas sejam perfeitas demais, ou até mesmo desejado grandes coisas a partir daquilo que só pode ser pequeno e singelo. É, também, pressa minha entre as tantas pressas impostas ao mundo, não sou menos partícipe do que essas instituições que me rodeiam, esses grandes agentes...

Criando o blog, procurei imagens de internet e tecnologia mais retrô. Inicialmente, procurei imagens do Windows XP, que é mais quadrado, tem aquelas barras de carregamento com linhas segmentadas, quadradinhos azuis, até mesmo a linha superior das janelas tinha aquele cinza característico e uma disposição ao reto, à exceção de quando o aplicativo tinha a parte superior azul, com bordas arredondadas. Entretanto, o que mais me marcou nessa busca foi quando procurei o Windows 7 e seu Wallpaper padrão: na verdade, fui uma criança Windows 7, telas brilhosas, não tanto a certa opacidade presente no XP, transparência nos menus, o ícone do Windows presente numa bolha no canto inferior esquerdo... quando eu vi isso, posso afirmar, me senti devidamente integrado:

Além disso, de tarde fui fazer uma prova que minha namorada mandou. Ao me deparar com as questões, com as múltiplas coisas que são cobradas em provas de concursos, senti novamente a sensação de bombardeio, de desorganização e incapacidade de dar conta daquilo tudo. É a sensação de não saber por onde começar, por onde voltar, de que ponto partir, e o todo só pode ter então uma aparência: a de um colosso, de algo inatingível, o impossível materializado. Entretanto, algumas questões, que há alguns meses atrás eu consideraria impossíveis, que me sentiria incapaz de fazê-las, já me apareceram como óbvias e até mesmo esdrúxulas (não querendo ofender a dignidade das questões, na medida que cada uma delas nos edifica para sermos exímios respondentes sem pensamento).

Acredito que essa seja esses sejam meus maiores obstáculos: o todo e a parte. O completo, o acabado, o cumprido. Por desejá-lo, não desejo. Desejar é parcial, é fragmentado, é parte. O que é parte capta o desejo facilmente, remete mais facilmente a algo nosso, porque, quando é todo, já está remetendo a algo outro nessa própria totalidade, que é mais difícil de enxergar onde o nosso próprio desejo pode participar. A internet atual capta a parte, capta o caráter fragmentário do desejo, a desintegração em que ele se fundamenta e propõe justamente conteúdos não integrados, díspares um a um, capazes de serem investidos parcialmente por nosso interesse sem o esforço de vê-los em um todo. Um texto, uma matéria do concurso, um livro que lemos, convoca-nos a um trabalho diferente, pois conclama a uma atividade criativa de ver, na inteireza daquilo que nos deparamos, um espaço onde possamos nos integrar só através de um trabalho, que envolve remoções e encaixes, envolve a fragmentação de outro modo: fragmentar como uma atividade, como um exercício que nos permite ver no que era inteiro as suas ligações e, vendo-as, permitir a nós mesmos rearticulá-las.

Confesso que esse parágrafo foi confuso, mas sinto que é porque eu também estava pensando inconclusivamente até chegar numa conclusão mais sintética que é essa: é a própria articulação que damos às coisas que permite com que nos encaixemos no todo, não é necessariamente haver lá um elemento posto por nós ou não, mas algo bem mais semelhante à uma "visada organizativa". A voz de Renato Russo cantando os versos do apóstolo Paulo vem a mim: Agora vejo em partes, mas então veremos face a face.

Acredito que é isso. Gostaria de ir à academia hoje também. Sinto que o blog, assim como ver TV, pode ser uma atividade que me regula, que ainda deixa um mínimo espaço para mim, espaço que permite que eu reorganize as coisas: não de um modo bom ou ruim, mas ao meu modo. Penso que isso é precioso. Também, amo muito minha namorada.


Pensamentos tão livres quanto a vontade de ver uma notificação

Acredito que escrevo esse blog por duas razões: a primeira vem dos estudos de iniciação científica que faço na universidade, sobre como a atual configuração da internet difere bastante daquela em que eu cresci, dos anos 2000. Posso, inclusive, falar sem as amarras da linguagem acadêmica, o que ajuda bastante a poder organizar o pensamento às vezes: é bom sentir as minhas ideias fluírem, não o fluxo de informações, notícias e teorias fluindo dentro de mim.

Uma autora chamada Letícia Cesarino afirma que a internet vive, hoje, numa web 3.0, uma terceira fase, distinta de webs anteriores, pois é marcada pela presença de grandes plataformas controladas por grandes empresas: Instagram, Facebook, Youtube, TikTok. Essas plataformas são propriedade de empresas como Meta e Google (inclusive, o Blogger, que estou usando agora, também é propriedade da Google). Elas já surgem em um momento que os métodos de geração de valor pela internet e a arquitetura delas também é montada de forma distinta: segundo Shoshana Zuboff, é preciso que se construa um modelo de engajamento perpétuo, de maneira que o usuário forneça informações (a partir das interações mais ínfimas com as postagens, pesquisas e até erros de digitação) para aprimoramento das tecnologias de inteligência artificial, voltadas para a entrega de conteúdo personalizado; além disso, com essas mesmas informações pessoais, as plataformas podem vender perfis de anúncio muitíssimo precisos para outras empresas, já que elas contém informações do mínimo cotidiano das pessoas, das menores interações que elas tem em seu dia a dia.

É compreensível, então, que essas empresas queiram que o engajamento não pare, que a conexão seja sem fim. Só assim elas ganham dinheiro e assim preferem um feed infinito, com novas postagens a todo momento, com notificações que nos chamam mesmo quando estamos fora dos aplicativos, mesmo quando estamos fora do celular.

(https://giphy.com/explore/surfing-the-web)Penso que o blog oferece algo de diferente. Esses dias vi no Twitter uma queixa extremamente interessante: é muito diferente a sensação de surfar na web daquela de abrir um aplicativo. Estou surfando, estou indo no movimento das ondas, eu preciso me equilibrar, preciso tomar cuidado com o caldo, posso até fazer umas manobras. Sinto meu interesse fazer parte do processo; Estou abrindo, vejo meu mundo em uma possibilidade limitada, somente com aquilo que está contido dentro do que abro. Pode-se contra-argumentar que abrir um aplicativo não pode ser de modo algum uma ação limitada, pois eu mesmo falei que eles tem uma quantidade infinita de postagens. Tudo bem, há um ponto aí, mas um buraco sem fundo, sem fim para finalmente se espatifar, não deixa de ser um buraco.

Acredito que um blog tem essa sensação de fundo, de fim. Além do mais, há algo na forma blog que envolve aquilo que estava subjacente no surfar da web dos anos 2000. Um blog é um blog, geralmente sobre um assunto e, se não é sobre um assunto, é sobre uma pessoa ou um grupo de pessoas. Não é um mundo de assuntos, um mundo de pessoas, um mundo de grupos. Há um fim, é limitado. Sem falar que o blog não tem o regime de visualizações como um imperativo: vá lá que tenha os seus exibicionistas, que devem buscar isso a todo custo. Entretanto, não é como no Instagram, onde parece que a noção de sex appeal foi perpetuada para tudo, sem o sex, mas com o appeal acentuado, porque até mesmo uma propaganda deve exibir suas informações rapidamente, nos 15 segundos em que compraram de anúncio entre um story e outro, ou nas propagandas de 5 segundos que o YouTube nos obriga a ver antes de ser capaz de pular (será que essa tecnologia acabará um dia? seremos escravos dos anúncios que não conseguimos pular? voltaremos, então, daquilo que foi a promessa de ver conteúdo audiovisual sem anúncios, sem as propagandas da TV, justamente para o modelo contrário: a própria TV, com anúncios impossíveis de serem pulados, mas com um toque diferente: se for premium, se pagar, até que dá para pular).

Enfim, tenho minhas queixas de viver nessas plataformas. Na verdade me choca que as pessoas também não as expressem, por mais que eu saiba que muitas as tenham. Quando fico muito no celular, tenho a sensação de vida empobrecida e é impressionante a sensação de ir para a janela depois de longas sessões de uso dos aplicativos e perceber que o mundo é maior. Minha janela dá para uma grande área verde, com um açude, um parque, pessoas vivendo ao redor. Imediatamente, comparo a minha ação de ficar no celular com toda essa vida ao redor, e vejo que reduzi meu tempo, meu espaço, a uma sensação sem forma, uma sensação sem a presença da diferença. Não sinto o tempo e isso me entristece.


Bem, eu supostamente deveria dizer a segunda razão, mas acabei me estendendo sobre a primeira. A segunda é que estou estudando para concursos com minha namorada, pretendemos nos casar, e, caso nós passemos no concurso, teremos uma vida muito confortável. Entretanto, estamos focando, apesar das dificuldades. Gostaria bastante de falar sobre as dificuldades disso, dar vida para elas com essas palavras. A dificuldade que falei agora é uma das maiores, talvez por não ser só minha, mas por ser dificuldade de uma época.

FAZER

H oje, não consegui estudar direito. Não deu, não rolou, sem delongas. O pior é ficar com essa sensação de que eu deveria estar lá, no estud...