ESTUDAR LEIS: É PRECISO UM PAPEL

Hoje decidi falar sobre uma das coisas mais chatas no estudo de concursos públicos: estudar leis. Inicialmente, considerava que seria impossível para mim aprender o que uma lei diz, com aquele tanto de informações compiladas umas sobre as outras. É bem diferente de estudar teorias psicológicas ou temáticas psicológicas, pois estas tendem a construir uma correlação, um conceito ou elemento interage com outro, de modo que a qualquer instante todo conceito está sendo recuperado. Entretanto, as leis não são assim, porque a dimensão "decoreba" acaba sendo a mais presente de todas. Apesar disso, descobri um aliado inesperado: o papel... ah, o papel!

O papel me ajuda bastante, porque posso ver toda a disposição do texto na minha frente: não há zoom para ampliar ou afastar, pois simplesmente o texto está oferecido em uma ordem definida para os meus olhos. Posso, por outro lado, rabiscar, circular, ligar, escrever e dar outras tonalidades para essa ordem que me foi oferecida, e é exatamente isso o que faço. A minha letra, horrenda e troncha, inlinear, decaindo como uma cascata nas folhas sem linhas: eu a amo, eu posso ter dela uma noção de criação. E isso me faz ficar apaixonado pelo papel da lei... vou achando como que um fruir estético de estar nele, construindo nele?!

É bem diferente, por exemplo, desta escrita dos blogs, com o uso de caracteres que são uniformes, digitados. Certa vez, vi um neuropsicólogo afirmar que o feedback dado por teclar uma tecla e escrever uma letra é bem diferente, e isso é verdade: aos poucos, teclar vai se tornando uma ação indiferenciada, como se um só ato pudesse produzir uma infinidade de letras e palavras. Escrever, por outro lado, necessita de movimentos precisos para se realizar: vá lá que a escrita de um "l" minúsculo é bem parecida com a de um "e" minúsculo, mas não se escreve a palavra "lerdo" com o mesmo ato indefinido entre o "l" e o "e": é preciso organizar, ainda que façamos isso automaticamente (e é tão belo que o façamos), mas tudo isso é advindo de tantas minúncias que esquecemos os anos de formação aos quais tivemos de nos dedicar quando crianças, com muito esforço, para aprender a desenhar uma letra, para associá-la a um som, para associá-la às outras letras, para formar um mundo com a linguagem.

Com isso, não quero causar demérito nenhum aos computadores, às telas, aos fãs dos arquivos digitais. Até porque sou um desses fãs, já que quem não ama usar a ferramenta de lupinha de seu leitor de pdf para encontrar rapidamente aquilo que demoraríamos horas de rastreamento entre sumário e páginas para achar? Num instante, achamos. Contudo, só desejo salientar algo que o próprio Freud um dia falara no "Mal-estar na cultura": as nossas inovações tecnológicas tem a tendência de serem cobertores curtos: para quê aumentar a longevidade da vida se cada vez mais as pessoas tem vivido vidas mais miseráveis? o carro que me faz aniquilar a distância entre eu e meu amigo que sinto saudades é o mesmo que o levará novamente para longe de mim. De maneira semelhante, a mesma lupinha que nos faz encontrar de imediato uma informação é aquela que nos tira a possibilidade de encontrar fortuitamente algo que em um primeiro momento não era nosso interesse principal, mas que de súbito nos faz deparar com um interesse inesperado.

Enfim, isso é mais uma reunião de pensamentos que tenho sobre o papel. E, ah! sobre as leis... eu penso que é muito importante, pelo menos para mim, o estudo delas no papel, fixo, sem rolagem de tela. Quando faço questões, sinto que a primeira coisa que me vem à memória é onde o artigo que está sendo cobrado está na página do papel: em cima, embaixo, no meio... logo isso me vem rapidamente à cabeça, e as associações passam a ser feitas com mais facilidade.

Acredito que isso tenha motivos psicopedagógicos relacionados com a orientação, pois essa função psíquica tem uma ordem hierárquica: primeiro temos a orientação de nós mesmos, ela é a mais básica; depois, a orientação espacial, que permite com que localizemos onde estamos e onde estão as coisas no mundo; por fim, a orientação temporal, que encadeia os fatos, liga-os por uma ordem causal, além de nos dar a noção "cronológica" de tempo. O fato de haver um espaço no papel, onde podemos localizar as coisas, tem caráter auxiliar para nossa capacidade de entender de maneira causal essas mesmas coisas, pondo-as em ordem. A fixidez no papel talvez nos ajude nessa dimensão organizativa.

Mas... sigo estudando! Essa é só uma dica que construí para mim, talvez para outra pessoa funcione de outras formas. Há muitas leis bem importantes para estudar: o ECA, a Maria da Penha, o Estatuto da Pessoa Idosa, a lei Henry Borel, o sistema de garantias de direito da criança e do adolescente... tantas e tantas coisas, que aos poucos sinto serem mais tangíveis para mim. Seguimos!

Aliás, uma sugestão de vídeo, que até encaminhei para minha namorada. É uma reportagem da DW sobre a perda da capacidade de escrita e as implicações históricas disso. Não é só a perda de uma habilidade individual, mas uma perda cultural em grande escala. Enfim, segue o vídeo para os interessados ^_^






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