Há tantas tarefas e eu quero uma só

Uma das coisas mais legais de viver é observar nossas incoerências, porque, pelo menos nas minhas, é onde posso ver saídas para os meus próprios conflitos e limites. Já fui de pensar que era por um tipo de polimento de mim mesmo que eu me tornaria melhor, mais comprometido com aquilo que eu quero. Hoje penso diferente, acredito que só posso querer enquanto não estiver polido, que os pontos finais não são tão verdadeiros, que a vida, em si, só aceita como bastante o ponto da morte.

Por isso, ponto e vírgula! Algumas pausas um pouco maiores têm me auxiliado a ver o mundo com um espaço e um tempo distinto: ligo a tv, espero a jornalista apresentar as noticias para mim, devo esperar a notícia que não ligo tanto acabar para ver outra e por aí vai...; escrevo o blog, e me satisfaço de rolá-lo até um fim que chega. Graças a Deus, o mundo tem fim.

Nessas e outras, sobra sempre um momentinho aqui e acolá quando as tarefas não se sobrepõe num ritmo imparável umas às outras. E, talvez, foi essa epifania que eu tive e que me revelou uma grande dificuldade minha: santo Deus, as tarefas se sobrepõe num ritmo imparável umas às outras!

Percebi o quanto isso me exaure enquanto estudo. Na verdade, em outro momento, até falei sobre isso quanto às demandas da universidade. Entretanto, essas eram tarefas grandes, mas as pequenas também vão fazendo boa parte de desgaste psíquico na minha vida. Domingo é o dia em que faço o almoço da semana, e é sempre tirar o dia para isso: a saga começa no dia anterior, com o remolho do feijão. De manhãzinha, tirar o frango para descongelar; cortar os legumes; cortar a calabresa do feijão; cozinhar o feijão; guardar nas marmitinhas; limpar a panela de pressão (que saco!) pra fazer o frango... estou me cansando até de empilhar tudo que é preciso fazer.

Hoje, segunda-feira, por mais que eu tenha lavado louças e louças (curiosamente, minha mãe chama a louça que está na pia de troço, e gosto do vocábulo "troço" porque dá uma conotação de raiva que temos da louça para lavar). Corrigindo-me, por mais que eu tenha lavado os troços* ainda sobraram troços para lavar hoje. Deixei-os na pia, eis o começo de minha saga.

A cozinha se tornou o elefante da casa. Depois de uma noite mal dormida em razão de gritos dos vizinhos (poxa, no domingo é sacanagem pessoal, segunda é dia de voltar ao tranco), fui fazer o café da manhã, olhei para aquelas panelas, talheres, pratos, tábuas... "vixe, vou só lavar a frigideira e fazer meu ovo". Mais um para a pilha. Saio, vou para a universidade. Volto (a cozinha fica próxima à porta de entrada), e o elefante olha para mim. Ignoro-o. Preciso estudar para o concurso. Começo a correr os olhos pelo manual de psicopatologia, sensopercepção, interessantíssimo, existem fenômenos registrados de pessoas que conseguem ver os objetos, mas não os percebem: como é incrível e inacreditável o tanto de coisas que existem! E... a louça na cozinha, que também existe.

Aquela louça se tornou minha inimiga número um, porque tudo que eu queria fazer era invadido por ela. Passei a tarde inteira nisso. Ah,  meu Deus! de manhã eu tinha colocado uma máquina de roupas para lavar: tenho que estendê-las, mas quando... quanta roupa... e ainda tenho que tirar as que eu já tinha estendido no varal. Tudo vindo atrás do outro, um trem, com vagões infinitos, se passava nos trilhos de minha mente. Uma das formas de me expressar é uma carta — uma das minhas favoritas, inclusive ! — de Yu-Gi-Oh!: a polimerização, carta usada para fazer a fusão de monstros e torná-los mais fortes e com novos efeitos. 

Mas todo trem tem um maquinista. E quisesse eu ou não, sofresse eu ou não, o maquinista era eu: e já estava vendo os vagões descarrilharem. Vagões que eu coloquei na minha própria vida e que não posso pedir resgate sem responder, ao questionarem como isso aconteceu, que fui eu quem fiz esse caos. Percebo que muitas dimensões da vida não dependem de mim, mas muitas também dependem, e talvez sejam elas as mais importantes que eu tenho para lidar.

Acredito que seja isso que eu queria dizer. Hoje ainda pretendo estudar informática, sobre as noções de hardware. E descubro que, como no Yu-Gi-Oh, é sempre importante deixar uma carta virada para baixo, porque ela pode te ajudar.






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