Pensamentos tão livres quanto a vontade de ver uma notificação

Acredito que escrevo esse blog por duas razões: a primeira vem dos estudos de iniciação científica que faço na universidade, sobre como a atual configuração da internet difere bastante daquela em que eu cresci, dos anos 2000. Posso, inclusive, falar sem as amarras da linguagem acadêmica, o que ajuda bastante a poder organizar o pensamento às vezes: é bom sentir as minhas ideias fluírem, não o fluxo de informações, notícias e teorias fluindo dentro de mim.

Uma autora chamada Letícia Cesarino afirma que a internet vive, hoje, numa web 3.0, uma terceira fase, distinta de webs anteriores, pois é marcada pela presença de grandes plataformas controladas por grandes empresas: Instagram, Facebook, Youtube, TikTok. Essas plataformas são propriedade de empresas como Meta e Google (inclusive, o Blogger, que estou usando agora, também é propriedade da Google). Elas já surgem em um momento que os métodos de geração de valor pela internet e a arquitetura delas também é montada de forma distinta: segundo Shoshana Zuboff, é preciso que se construa um modelo de engajamento perpétuo, de maneira que o usuário forneça informações (a partir das interações mais ínfimas com as postagens, pesquisas e até erros de digitação) para aprimoramento das tecnologias de inteligência artificial, voltadas para a entrega de conteúdo personalizado; além disso, com essas mesmas informações pessoais, as plataformas podem vender perfis de anúncio muitíssimo precisos para outras empresas, já que elas contém informações do mínimo cotidiano das pessoas, das menores interações que elas tem em seu dia a dia.

É compreensível, então, que essas empresas queiram que o engajamento não pare, que a conexão seja sem fim. Só assim elas ganham dinheiro e assim preferem um feed infinito, com novas postagens a todo momento, com notificações que nos chamam mesmo quando estamos fora dos aplicativos, mesmo quando estamos fora do celular.

(https://giphy.com/explore/surfing-the-web)Penso que o blog oferece algo de diferente. Esses dias vi no Twitter uma queixa extremamente interessante: é muito diferente a sensação de surfar na web daquela de abrir um aplicativo. Estou surfando, estou indo no movimento das ondas, eu preciso me equilibrar, preciso tomar cuidado com o caldo, posso até fazer umas manobras. Sinto meu interesse fazer parte do processo; Estou abrindo, vejo meu mundo em uma possibilidade limitada, somente com aquilo que está contido dentro do que abro. Pode-se contra-argumentar que abrir um aplicativo não pode ser de modo algum uma ação limitada, pois eu mesmo falei que eles tem uma quantidade infinita de postagens. Tudo bem, há um ponto aí, mas um buraco sem fundo, sem fim para finalmente se espatifar, não deixa de ser um buraco.

Acredito que um blog tem essa sensação de fundo, de fim. Além do mais, há algo na forma blog que envolve aquilo que estava subjacente no surfar da web dos anos 2000. Um blog é um blog, geralmente sobre um assunto e, se não é sobre um assunto, é sobre uma pessoa ou um grupo de pessoas. Não é um mundo de assuntos, um mundo de pessoas, um mundo de grupos. Há um fim, é limitado. Sem falar que o blog não tem o regime de visualizações como um imperativo: vá lá que tenha os seus exibicionistas, que devem buscar isso a todo custo. Entretanto, não é como no Instagram, onde parece que a noção de sex appeal foi perpetuada para tudo, sem o sex, mas com o appeal acentuado, porque até mesmo uma propaganda deve exibir suas informações rapidamente, nos 15 segundos em que compraram de anúncio entre um story e outro, ou nas propagandas de 5 segundos que o YouTube nos obriga a ver antes de ser capaz de pular (será que essa tecnologia acabará um dia? seremos escravos dos anúncios que não conseguimos pular? voltaremos, então, daquilo que foi a promessa de ver conteúdo audiovisual sem anúncios, sem as propagandas da TV, justamente para o modelo contrário: a própria TV, com anúncios impossíveis de serem pulados, mas com um toque diferente: se for premium, se pagar, até que dá para pular).

Enfim, tenho minhas queixas de viver nessas plataformas. Na verdade me choca que as pessoas também não as expressem, por mais que eu saiba que muitas as tenham. Quando fico muito no celular, tenho a sensação de vida empobrecida e é impressionante a sensação de ir para a janela depois de longas sessões de uso dos aplicativos e perceber que o mundo é maior. Minha janela dá para uma grande área verde, com um açude, um parque, pessoas vivendo ao redor. Imediatamente, comparo a minha ação de ficar no celular com toda essa vida ao redor, e vejo que reduzi meu tempo, meu espaço, a uma sensação sem forma, uma sensação sem a presença da diferença. Não sinto o tempo e isso me entristece.


Bem, eu supostamente deveria dizer a segunda razão, mas acabei me estendendo sobre a primeira. A segunda é que estou estudando para concursos com minha namorada, pretendemos nos casar, e, caso nós passemos no concurso, teremos uma vida muito confortável. Entretanto, estamos focando, apesar das dificuldades. Gostaria bastante de falar sobre as dificuldades disso, dar vida para elas com essas palavras. A dificuldade que falei agora é uma das maiores, talvez por não ser só minha, mas por ser dificuldade de uma época.

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