Ler Nietzsche... Para mim, sempre foi uma experiência em tanto. Cheguei ao bigodudo por recomendação de um grande amigo, Paulo, saudoso Paulo, com quem compartilhei leituras de ensino médio. Enquanto eu estava admirado pela filosofia platônica, talvez muito mais admirado com os termos, temas, a grandiosidade aparente dos assuntos, Paulo lia Nietzsche. Ele me recomendava, veementemente, mas eu tinha um repúdio a Nietzsche justamente por ele criticar aquele autor que eu tanto admirava girando em torno do meu umbigo e da minha cabeça oca: Platão.
Até que, um dia, no meio da pandemia, fui vencido: decidi ler Nietzsche e comprei a Genealogia da Moral, da L&PM Pocket, editora a qual tenho muito apreço e que a minha história compartilhada por ela começou por esse livrinho. Adoro essa capa laranja com o desenho do Nietzsche, adoro como a coleção é o mesmo desenho com cores distintas. Enfim, li Nietzsche, numa resistência inicial que se presentificava cada vez mais a cada página: até que, como pego de uma surpresa real, aquela que só pode surgir quando toda certeza está firmada, vejo-me avassaladoramente captado por aquele pensamento.
Talvez eu não me sinta tão à vontade para falar de como foi minha história pregressa em relação ao que desejo contar hoje. Assim, no mínimo, forneço esse breve preâmbulo que arruma o quarto para a madrugada de um dia cansativo. Ando estudando para uma residência jurídica, que tem apenas 1 vaga para a qual posso concorrer. Percebo um verdadeiro enfado mental ao fim da noite, quando eu me forçava a todo custo continuar estudando aquilo que é conteúdo programático para a prova. Desisto e solto o computador: nada mais me ajudará. Não consigo mais pôr nada em minha mente. Porém, restava ainda um sentimento de desvínculo de mim, isto é, uma sensação de que nenhuma ação que fizesse, nada daquilo que eu decidisse, poderia me restituir à minha vontade. Deitado na cama, sem sono, assolado pela responsabilidade de ter boas noites de sono antes das provas, amparado por todo o fundamento da neurociência que afirma: "é no sono que os conteúdos estudados se consolidam"; não durmo. Convive, em mim, junto a todo esse saber, uma insônia ferrenha.
Na minha cabeceira, lá está a mesma cópia de Genealogia da Moral citada no início. Tinha-a puxado da estante de livros há cerca de dois meses atrás para uma leitura despretensiosa, que logo me fazia pegar no sono. Entretanto, hoje puxei-a lotado de interesse, como que uma saliva na boca, um desejo que era, a mim próprio, desconhecido. Pulei a introdução, que também é maravilhosa, e fui direto à primeira dissertação, sobre o "bom" e o "ruim". Li-a inteira, a fio, sem pausas, e cá me encontro motivado a escrever este texto no blog.
Sempre tive um sentimento, desde a primeira vez que li Nietzsche, de uma vitalidade que esbanja nos seus escritos. Verdadeiramente, sinto-me vivo a cada palavra que leio dos escritos dele. Ainda que eu tenha repúdio por todo o aristocratismo que sustenta o pensamento dele — talvez justamente pelo cristianismo no qual me fundei como pessoa — , sinto-me altamente revigorado pelo texto nietzscheano. É que, contra o dogma de concordância completa com o autor, tão em vigor na nossa época, por mais que Nietzsche mantenha o aspecto aristocrático, há nele também uma vontade subjacente: a de querer viver bem.
A bem da verdade, pelo rigor do texto dele, talvez fosse necessário dar uma volta atrás no parafuso: não é preciso querer viver bem, é preciso, antes de tudo, viver. E viver não significa prolongar a vida pelo máximo de tempo contra as condições adversas visando o futuro, ou seja, sobreviver, mas sim viver, sentir aquilo que nos move, ou até de melhor maneira, não sentir que há "aquilo que nos move", como algo exterior, uma causa, mas dizer sem medo: nos movemos. E, talvez, numa apuração ainda mais detida, parar de escrever e começar a se locomover, irrestritamente.
Uma conclusão que Nietzsche chegou, e que não irei lembrar exatamente agora em que obra está, é a de que "Pensar é uma doença". Essa conclusão me fascina. Isso vai contra todo o senso platônico que eu construía na adolescência! Contudo, acontece que eu não poderia negar, dizer "Isso não é verdade". De fato, quanto não nos queixamos de "pensar demais", o quanto o pensamento pode ser torturante, e mesmo tortuoso. Em vitrais de Igreja, coloridos, que formam imagens santas, a luz atravessa, formando roxo, verde, azul, encantadores a primeira vista, mas que podem nos fazer perdidos perante uma força que os gerou: a Luz do Sol.
E, mesmo assim, tergiverso sobre o que quero falar: o que eu quero falar, talvez para ser mais direto, como a força do Sol que cito, é que, para mim, ler Nietzsche é saudável, como ele próprio o dizia dos seus escritos. Ao lê-lo, sinto que retomo a importância de agir para me afirmar, consigo voltar o olhar para mim mesmo e dizer: "Por mais que eu queira o que é bom para mim, ainda que eu deseje diversas coisas que eu julgue ser boas, não é dificultoso localizar o bom só fora de mim? Quer dizer, relembra o bigodudo, o que há, afinal, em mim? Mas essa pergunta também não pode me encaminhar para um alumbramento perpétuo da minha interioridade, interpretação que me levaria a negar o que os meus olhos veem fora. Mas é o fato dos meus olhos verem, é o fato de meus dedos tatearem, é o fato de que tenho um corpo e que com ele sinto de diversas maneiras. Aliás, não é sentindo que começo, porque, antes de tudo, precisei mover meus olhos para um lugar fora de mim, movi minhas mãos para tatear o que eu desejava. Eu sou capaz, eu movo para sentir, eu não tenho em mim cada sensação, mas eu a conquisto por afirmar a minha capacidade, por não estagná-la, mas por fazer uso dela. Quão mais triste e perdido eu não era desejando o que é 'bom' para mim. Ora, desejando o que é 'bom' me perdi daquele princípio que me move, eu mesmo, meu corpo, meu desejo. Não é desejando o bom que o alcanço, mas, desejando, fortuitamente o encontro."
Nesse sentido, Nietzche, como ele próprio dizia, sempre me foi um ar a respirar. Hoje à noite, desejei o "bom" da boa noite de sono, que me torturava, e fazia sofrer, jorrando culpa em meu coração por não dormir cedo. Entretanto, a minha boa noite de sono necessitava expressar, mostrar, colocar para fora, agir. Por meio disso, eu fiz mais de mim, na verdade, eu me fiz humano.
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